Opinião
11 anos de carreira congelada: onde estava o sindicato?
O que chama atenção não é a modéstia do reajuste, mas a intensidade da mobilização em torno dele, sobretudo quando confrontada com o silêncio que historicamente marcou o sindicato diante de perdas muito mais expressivas para a categoria.
Contexto
Para um servidor com salário médio da categoria, o ganho real de 1,5% representa, no líquido, algo em torno de 50 reais por mês. O mesmo sindicato que hoje se mobiliza por esse valor permaneceu silencioso durante anos de retrocessos estruturais na carreira.
Uma linha do tempo objetiva esclarece o cenário.
Meados de 2015
A carreira ADP e o benefício de escolaridade dos servidores técnico-administrativos foram suspensos. Simultaneamente, docentes continuaram avançando na carreira, com livre-docência ativa e novos concursos para professor titular.
2015 a 2022
Com a carreira paralisada, os servidores técnico-administrativos perderam ao menos duas referências de progressão. Nenhuma mobilização sindical de peso foi registrada em defesa da categoria nesse período.
Janeiro de 2022
A carreira docente foi retomada, com progressões retroativas e sem exigência de interstício, permitindo que docentes obtivessem mais de uma promoção no mesmo ano. A carreira dos técnico-administrativos não foi retomada.
2022 (mesmo ano)
Havia recursos disponíveis para custear 100% da equiparação salarial dos técnico-administrativos. A pauta não avançou. Não houve mobilização comparável à que se observa hoje pelo reajuste de 1,5%.
Novembro de 2025
A ADUNESP votou contra a equiparação dos servidores técnico-administrativos. Meses depois, o mesmo sindicato que representa esses servidores acompanha o ímpeto da entidade docente para reivindicar reajuste em favor dos professores.
Hoje
A carreira ADP completa 11 anos paralisada. A suspensão já custou à categoria ao menos quatro referências de progressão. O AIQ, adicional de relevância econômica significativamente superior ao reajuste em pauta, permanece sob risco sem mobilização proporcional.
O padrão que emerge dessa linha do tempo é difícil de ignorar. A combatividade sindical parece acompanhar o ritmo da ADUNESP, e não as demandas específicas da categoria técnico-administrativa. Quando os docentes se movem, o sindicato se move. Quando os interesses divergem, como ficou evidente na votação de novembro de 2025, os técnico-administrativos ficam desguarnecidos.
O reajuste de 1,5% beneficia primariamente uma categoria que, em muitos casos, recebe remuneração superior a 20 ou 30 mil reais mensais. Para o servidor técnico-administrativo médio, o ganho líquido é irrelevante frente ao que representa a retomada da carreira, a preservação do AIQ ou a conquista da equiparação salarial historicamente pleiteada.
Ponto central
A categoria técnico-administrativa tem pautas próprias, urgentes e de maior impacto financeiro do que o reajuste em negociação. Subordinar essas pautas ao calendário e aos interesses docentes representa uma escolha que merece debate aberto dentro da categoria.
A questão que se coloca não é se 1,5% é bom ou ruim. É se faz sentido empenhar energia de mobilização em uma pauta de retorno marginal para a categoria, enquanto a carreira segue congelada há mais de uma década, o AIQ enfrenta incertezas e a equiparação permanece distante.
Os servidores técnico-administrativos da UNESP têm direito a um sindicato que priorize suas pautas, não apenas aquelas que coincidem com os interesses de outras categorias. Esse é o debate que precisa acontecer.